domingo, 2 de julho de 2017

"Ay, repicai, Miniña, o pandeiro" para este "NATAL BRASILEIRO"

Comemorado pelo povo com dança, representações, música e canto, desde pelo menos o século IX (Ay, repicai/Miniña, o pandeiro/Que fazer hua festa queiro, já dizia um vilancico seiscentista), o Natal é considerado por excelência a Noite de Festa. As festas do Natal se estendem, na realidade, de meados de dezembro até o Dia de Reis, 6 de janeiro, e se há muito tempo ninguém mais canta, come e bebe dentro das igrejas, como aconteceu até bem tarde, no século XVIII, na área do povo e alegria pelo nascimento do Cristo é o melhor pretexto para uma série de realizações: pastoris, lapinhas, congadas, cheganças, bumba-meu-boi, marujadas, comedorias ruidosas aguardando a missa-do-galo e etc.

Nas grandes cidades, evidentemente, onde a lei dos enlatados e dos pacotes culturais importados prevalece inclusive para a forma de comemorar datas tradicionais, esse momento de emergência da arte popular para a comunhão de toda a sociedade desapareceu: hoje temos os papais noéis de porta de lojas (com um pobre coitado dentro, suando na roupa de lã para ganhar um salário mínimo), pinheirinhos europeus, cartõezinhos da UNESCO e muito jingle-bells, jingle-bells, lá, lá, rá, lá, lá...

Para compensar todo esse empobrecimento lúdico-cultural-espiritual da vida urbana, levada a reinterpretar a confraternização do Natal dentro de um calendário de consumo, o produtor Marcus Pereira lembrou-se de produzir um disco que vem mostrar, com ares de surpresa que, só no Brasil, já tem 400 anos, alguns exemplos de como o povo humilde continua a cantar, a dançar e a representar em autos ambulantes a sua Festa.

Nesse disco, intitulado Natal brasileiro – Pastoril e Lapinha, o diretor artístico da gravadora Discos Marcus Pereira, o competentíssimo Marcus Vinícius (que, por sinal, é também excelente compositor, tirando certas desmunhecadas para o lado da bossa nova), nos faz ouvir 12 composições natalinas do folclore nordestino, recolhidas e tratadas musicalmente “a partir dos elementos fornecidos pela própria musicalidade dos pastoris conservando-se o seu espírito e apenas colocando-o noutro nível de execução”.

Trabalho muito bem sucedido, nesse aspecto do respeito à verdade da música e do canto popular das marchas de lapinhas e pastoris (o coro com a Mestra Aelluah, a Contramestra Lurdinha e a Diana e Borboleta Verinha, reproduz com muita fidelidade as ingênuas vozes das pastoras do povo), o disco Natal Brasileiro – Pastoril e Lapinha transforma-se desde logo num documento absolutamente necessário para a preservação, entre as pobres pessoas ricas das cidades, da verdadeira riqueza de cultura, criação e musicalidade que os pobres tem sempre para dar o Brasil, com incrível generosidade dos que só tem de seu a solidariedade humana, o amor e a esperança numa sociedade e num mundo melhor.

Fonte: TINHORÃO. José Ramos; "Música popular: O ensaio é no jornal". MIS Editorial/Secretaria do Estado de Cultura/FAPERJ, 2001.

Artigo retirado do Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 10/11/1977 - Pág, 2.


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