domingo, 9 de julho de 2017

LOUIS ARMSTRONG – “esqueceu a letra? inventa!”

O estilo vocal chamado scat – o uso da voz como se fosse um instrumento, um saxofone ou um trompete, cantarolando as notas sem enunciar as palavras – é um dos grandes trunfos e uma espécie de marca registrada dos cantores e das cantoras de jazz. Particularmente notáveis no exercício do scat foram divas como Ella Fitzgerald, Sarah Vaughan e Betty Carter e cantores como Billy Ecktyne, Mel Tormé e, mais recentemente, Al Jarreau e George Benson. Até Frank Sinatra – o cantor popular mais sintonizado com o jazz – se entregava vez por outra a um scat, como o conhecido shu-bi-du-bi-duuuu de “Strangers in the Night”. Existem ainda grupos vocais adeptos do scat, como os Swingle Singers e o Manhattan Transfer. Merece ainda menção Chet Baker, que toca o trompete como quem canta e canta como que toca o trompete – uma contrapartida cool de Louis Armstrong.
Segundo a mitologia do jazz, o scat foi uma invenção casual que teve tudo a ver com a capacidade do jazz de improvisar soluções – sua inteligência de, durante o ato da criação, agarrar uma interferência do acaso e incorporá-la à obra de arte, alterando o curso da expressão individual. Louis Armstrong (1901-71), no meio da gravação de “Heebies Jeebies”, em 1926, de repente teria esquecido a letra. Sem perder o rebolado, para não interromper o fluxo da interpretação, passou a cantarolar imitanto um instrumento, ba-da-duá-bauá-buá-badi-dá-dá... Esta é a versão da história que entrou para a lenda. Na verdade, pesquisas mais recentes dos biógrafos de Armostrong contam que ele tinha a letra da canção escrita numa folha de papel e, a certa altura, deixou-a cair ao chão. Seguiu em frente, cantando com palavras inventadas, onomatopaicas na sua imitação de um instrumento de sopro; enquanto isso, o técnico de som se abaixava para pegar a folha caída, enquanto Armstrong, com o microfone na mão, fazia o mesmo. Ao se levantarem, ambos, literalmente, bateram cabeça. Esta versão é mais plausível, pois no disco, depois de incursionar no scat, Louis retoma a letra da canção. São apenas dois minutos e 53 segundos de gravação. Os velhos discos de 10 polegadas em 78 rotações por minuto raramente ultrapassavam a barreira dos três minutos.
Na época, “Heebies Jeebies” foi considerado um “novelty act” – uma daquelas inovações sensacionalistas a que os jazzistas recorriam para aumentar a vendagem dos discos no florescente mercado musical. O sucesso foi imenso: em poucas semanas, “Heebies Jeebies” vendia mais de 40 mil cópias e tornava-se o primeiro hit na carreira de Armstrong. Segundo o crítico George Avakian:

Louis desenvolveu uma nova escola de jazz vocal, baseada na abordagem dos cantores do folk e do blues, que usavam a voz como um instrumento. Louis mostrou que o significado emocional da letra de  uma canção pode ser expressado através de inflexões vocais e improvisações de uma qualidade puramente instrumental tão eficazmente – ou mais ainda – do que através de palavras. Esta linha de desenvolvimento correu paralelamente à sua influência instrumental. E ainda afeta todo cantor popular e de jazz dos nossos dias.

FONTE:
MUGGIATI, Roberto. “IMPROVISANDO SOLUÇÕES – o jazz como exemplo para alcançar o sucesso”. Rio de Janeiro: BestSeller, 2008.

domingo, 2 de julho de 2017

"Ay, repicai, Miniña, o pandeiro" para este "NATAL BRASILEIRO"

Comemorado pelo povo com dança, representações, música e canto, desde pelo menos o século IX (Ay, repicai/Miniña, o pandeiro/Que fazer hua festa queiro, já dizia um vilancico seiscentista), o Natal é considerado por excelência a Noite de Festa. As festas do Natal se estendem, na realidade, de meados de dezembro até o Dia de Reis, 6 de janeiro, e se há muito tempo ninguém mais canta, come e bebe dentro das igrejas, como aconteceu até bem tarde, no século XVIII, na área do povo e alegria pelo nascimento do Cristo é o melhor pretexto para uma série de realizações: pastoris, lapinhas, congadas, cheganças, bumba-meu-boi, marujadas, comedorias ruidosas aguardando a missa-do-galo e etc.

Nas grandes cidades, evidentemente, onde a lei dos enlatados e dos pacotes culturais importados prevalece inclusive para a forma de comemorar datas tradicionais, esse momento de emergência da arte popular para a comunhão de toda a sociedade desapareceu: hoje temos os papais noéis de porta de lojas (com um pobre coitado dentro, suando na roupa de lã para ganhar um salário mínimo), pinheirinhos europeus, cartõezinhos da UNESCO e muito jingle-bells, jingle-bells, lá, lá, rá, lá, lá...

Para compensar todo esse empobrecimento lúdico-cultural-espiritual da vida urbana, levada a reinterpretar a confraternização do Natal dentro de um calendário de consumo, o produtor Marcus Pereira lembrou-se de produzir um disco que vem mostrar, com ares de surpresa que, só no Brasil, já tem 400 anos, alguns exemplos de como o povo humilde continua a cantar, a dançar e a representar em autos ambulantes a sua Festa.

Nesse disco, intitulado Natal brasileiro – Pastoril e Lapinha, o diretor artístico da gravadora Discos Marcus Pereira, o competentíssimo Marcus Vinícius (que, por sinal, é também excelente compositor, tirando certas desmunhecadas para o lado da bossa nova), nos faz ouvir 12 composições natalinas do folclore nordestino, recolhidas e tratadas musicalmente “a partir dos elementos fornecidos pela própria musicalidade dos pastoris conservando-se o seu espírito e apenas colocando-o noutro nível de execução”.

Trabalho muito bem sucedido, nesse aspecto do respeito à verdade da música e do canto popular das marchas de lapinhas e pastoris (o coro com a Mestra Aelluah, a Contramestra Lurdinha e a Diana e Borboleta Verinha, reproduz com muita fidelidade as ingênuas vozes das pastoras do povo), o disco Natal Brasileiro – Pastoril e Lapinha transforma-se desde logo num documento absolutamente necessário para a preservação, entre as pobres pessoas ricas das cidades, da verdadeira riqueza de cultura, criação e musicalidade que os pobres tem sempre para dar o Brasil, com incrível generosidade dos que só tem de seu a solidariedade humana, o amor e a esperança numa sociedade e num mundo melhor.

Fonte: TINHORÃO. José Ramos; "Música popular: O ensaio é no jornal". MIS Editorial/Secretaria do Estado de Cultura/FAPERJ, 2001.

Artigo retirado do Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 10/11/1977 - Pág, 2.


A MÚSICA COMO MOLDE PARA A SOCIEDADE

Todas as vezes que o homem moderno, em qualquer momento de sua vida, ouve música, conhece realmente o significado e a implicação do que est...