domingo, 9 de abril de 2017

A MÚSICA E SUA ENERGIA

             O nosso tema não é a música como arte abstrata, senão a música como força que interessa a quantos a ouvem. A música, não apenas como entretenimento, mas como energia literal.
          Sempre que estivermos no campo audível da música, sua influência atuará constantemente sobre nós, acelerando ou retardando, regulando ou desregulando as batidas do coração; relaxando ou irritando os nervos; influindo na pressão sanguínea, na digestão e no ritmo da respiração. Acredita-se que é vasto o seu efeito sobre as emoções e desejos do homem, e os pesquisadores estão apenas começando a suspeitar-lhe da extensão da influência até sobre os processos puramente intelectuais e mentais.
             Além disso, influir no caráter do indivíduo é o mesmo que alterar o átomo ou unidade básica, a pessoa, com a qual se constrói toda a sociedade. Em outras palavras, a música também pode representar um papel muito mais importante no determinar o caráter e a direção da civilização do que a maioria das pessoas, até agora, propendeu a crer. Os poderes da música são multifacetados, às vezes misteriosamente potentes e, até agora, não de todo compreendidos. Podem ser usados ou abusados. Desprezamos o emprego consciente, construtivo, desses poderes em nosso próprio prejuízo. Ignoramo-los para nosso próprio perigo.
          Conquanto pouco se reflita hoje em dia sobre o significado ou a função da música dentro da sociedade, as civilizações de outro eram, de ordinário, muito cônscias do poder da música. Isso foi especialmente verdadeiro na era pré-cristã. Com efeito, quanto mais olhamos para trás no tempo, tanto mais se nos deparam pessoas que tinham consciência dos poderes inerentes ao âmago de toda música e de todo som.
          Tem sido fácil para o homem moderno, nascido e educado numa sociedade impregnada da filosofia do materialismo e do reducionismo, cair na armadilha de ter a música na conta de um aspecto não-essencial e até periférico da vida humana. E, no entanto, um ponto de vista dessa natureza teria sido considerado pelos filósofos da antiguidade não só irracional, mas também, fundamentalmente, suicida. Porque, desde a China antiga até o Egito, desde a Índia até a idade áurea da Grécia, encontramos o mesmo: a crença de que há algo imensamente fundamental na música; algo que, criam os antigos, lhe dava o poder de fazer envolver ou degradar completamente a alma do indivíduo, e, por esse modo, fazer ou desfazer civilizações inteiras.
             Algo imensamente fundamental na música...
            Era exatamente a isso que se dirigia Pitágoras na pesquisa através da qual descobriu que toda a música pode ser reduzida a números e relações matemáticas, e que o universo inteiro e todos os fenômenos dentro dele também podem ser explicados nos mesmos termos dos mesmos números e relações matemáticas especiais encontrados na música.
          A compreensão pitagórica da música era muito mais do que apenas materialista, acadêmica, e esse tipo de compreensão é lamentavelmente raro hoje em dia. Não obstante, descobrimos alguma coisa dessa chama sempre jovem da sabedoria eterna preservada na pequena minoria de músicos que ainda agora aliam o conhecimento acadêmico e a experiência prática da música a um genuíno e sério desenvolvimento espiritual interior.
         Poucos discordarão de que uma pessoa nessas condições é a muito amada personalidade musical chamada Yehudi Menuhin. E encontramos um brilho profundo e realmente pitagórico de introvisão nas sentenças iniciais de seu livro, Tema e variações. Aqui, o grande violinista contemporâneo expressa o significado interior das artes tonais em termos tão explicitamente verdadeiros e, no entanto, tão oniabrangentes em sua verdade, que inspiram grande quantidade de cuidadosas reflexões: 

        "A música cria ordem a partir do caos; pois o ritmo impõe unanimidade ao divergente, a melodia impões continuidade ao descosido e a harmonia impõe compatibilidade ao incongruente.
          Destarte, a confusão rende-se à ordem e o ruído à música, e, à medida que nós, através da música, alcançamos a maior ordem universal, que repousa sobre relações fundamentais de proporção geométrica e matemática, o tempo meramente recebe uma direção e é dado poder à multiplicação dos elementos e propósito à associação fortuita".

         Poderíamos parar por aqui. Quase não precisamos ir mais adiante. As palavras de Yehudi Menuhin dão-nos uma explicação plena modular da concepção que tinha o mundo antigo do poder da música; do porquê e do como acreditavam os antigos que a música pode afetar o homem e a civilização, convencidos que estavam de que o indivíduo é capaz de interiorizar a música, influindo, por assim dizer, no ritmo dos pensamentos do homem, na melodia das suas emoções e na harmonia de sua saúde corporal e estilo de movimento. De todo esse modos, supunha-se que a música determinava o tipo dos nossos pensamentos e atos.
          Como na música, assim na vida, esse axioma eterno contém o conceito central sobre o qual civilizações inteiras fundaram quase todos os aspectos da sua sociedade. E sobre esse mesmo conceito germinal, gerações de reis, sacerdotes e filósofos basearam todo o trabalho da longa duração de suas vidas.
            Como na música, assim na vida.
          Axioma segundo o qual se afeiçoam e moldam a consciência e toda a civilização, de acordo com o estilo existentes de música. Conceito esmagador, sem dúvida! Quando ponderamos nas suas implicações, a saber, que a música magnetiza a sociedade adequando-a consigo mesma...
          Seria realmente exato que a música tende a moldar-nos os pensamentos e os padrões de comportamento, de conformidade com seus próprios padrões íntimos de ritmo, melodia, moral e estado d´alma? A nossa mente volta-se, de pronto, para exemplos específicos: os estilos de música que conhecemos, e a sociedade ou a subcultura que se encontra em torno deles. Que dizer da música de hoje? Da sociedade de hoje? Está visto que o axioma acima, a revelar-se válido, é importantíssimo para a civilização moderna.


Fonte: TAME, David, "O PODER OCULTO DA MÚSICA: A transformação do homem pela energia da música". Tradução: Octavio Mendes Cajado. São Paulo: Editora Cultrix, 1984. 

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