segunda-feira, 24 de abril de 2017

A ERA CRISTÃ

        A música característica da Idade Média, seja ela religiosa, seja ela profana, foi monódica até a prática de uma polifonia mais elaborada por volta do século XIV. Os primeiros rudimentos da polifonia deram-se no século IX.
        Para fins de solenidade religiosa,a Igreja católica incentivou o emprego da música no culto e, em consequência do apoio dessa enorme instituição, ela se desenvolveu mais que a música profana. O que se entende por música monódica católica é o chamado canto gregoriano ou cantochão. Ele foi coletado e organizado no século VI pelo papa Gregório, o Grande, depois santificado. Esse papa identificou o nascimento de liturgias e cultos isolados e desenvolvidos localmente. Com a ajuda de especialistas, e apoiado no canto que levou seu nome, conseguiu unificar a liturgia e as ideias do cristianismo no Ocidente. Desse modo, representou a mais importante Manifestação da Idade Média.
         O canto gregoriano era usado nas liturgias católicas, missas e solenidades menores. Nas missas há a parte fixa, que inclui o Kyrie, o Glória, o Credo, o Sanctus, o Benedictus e o Agnus Dei. Há também o próprio, que é a parte variável da solenidade, que inclui o Introito, o Gradual, a Aleluia, o Ofertório e a Comunhão, partes estas que variam em função da época ou do santo celebrado.
      O canto gregoriano é monódico, baseado em oito escalas modais de origem grega, não tem acompanhamento, instrumentos não entravam na igreja, já que eram símbolos da música profana e "do pecado", é assimétrico, já que as frases se baseiam no ritmo do texto religioso latino, possui uma grafia rudimentar específica e era cantado exclusivamente por homens, a voz feminina era proibida na igreja, pois igualmente "induzia ao pecado".
         Desenvolveram-se várias técnicas de canto gregoriano. A chamada silábica dava-se quando cada sílaba era cantada com uma nota diferente. A neumática, quando eram usadas algumas poucas notas com uma mesma sílaba. A salmódica, quando muitas notas eram usadas com uma mesma sílaba.
     O canto gregoriano se espraiou pelo continente, infiltrando-se em outras culturas religiosas também cristãs. Havia o canto religioso russo, com influências da cultura bizantina, utilizado também pela Igreja ortodoxa grega. O canto ambrosiano, assim denominado em decorrência de seu organizador, o bispo Ambrósio de Milão (século IV), cultivava a prática de hinos e antífonas, um coro que respondia a um canto. Havia também o gálico, na França, que seguia os princípios do gregoriano tradicional, embora mais ornamentado. O canto mozárabe era um misto do gregoriano tradicional com as influências da cultura árabe, em decorrência da invasão da península Ibérica. Por volta do século IX ocorreu a prática dos chamados Tropos e Sequências, textos extras cantados no meio de um canto tradicional, como se fossem pequenas crônicas de época.
        Fora do âmbito religioso a música não se desenvolveu muito, e há poucos vestígios registrados. O que se sabe é que a música profana era praticada com mais regularidade rítmica, talvez para incentivar a dança, as melodias, se expandiam mais, não seguiam com rigor as escalas modais, tinham características nacionais, eram cantadas no vernáculo, diferentemente da universalidade do canto gregoriano, e às vezes tinham algum acompanhamento.
      Na Idade Média havia várias espécies de menestréis que divertiam as pessoas nas praças, nas ruas, viajando pelas comunidades. Embora mais cronistas de costumes que traziam novidades do que compositores ou poetas, colaboraram para preservar muitos cantos. Na França chamavam-se jograis e na Alemanha, gauklers.
       Os mais importantes grupos de menestréis vieram da França. Diferentes jograis, que eram figuras mais populares, esses entertainer eram de alto nível e chamavam-se troubadours e trouvères. Além da qualidade musical e dos textos, sua música era muito variada, contava com improvisos e  acompanhamentos de instrumentos de cordas (vielle). Apresentavam crônicas satíricas, canções de amor lamentos pela morte de figuras importantes, músicas de exaltação, desafios entre cantores, etc. Os troubadours vieram da Provença, no sul da França, e atuaram do século XI ao XIII. Mais de duzentas melodias e 2 mil poemas desses grupos foram preservados. Eis os nomes de alguns deles: Bernart de Ventadorn, Marcabru da Gasconha, Guiraut de Bornelh, Guiraut de Riquier e Bertran de Born. Os trouvères localizavam-se no norte da França e deles se conhecem mais de 1.500 melodias e 4 mil poemas. Os nomes importantes foram: Blondel de Nesle, Quesnes de Bérthune, Thibaut IV (rei de Navarra) e, o mais famoso deles, Adam de la Halle, que chegou a criar musicais com encenação.
        Influenciados pela música trovadoresca da França, surgiram nos séculos XII e XIII na Alemanha os minnesingers. Nomes mais importantes: Walther von der Vogelweide, Neithart von Reuental, Heinrich von Meissen e Heinrich von Muglin. Nos séculos XIV a XVI surgiram os meistersingers. Estes eram origem burguesa e já se organizavam em sociedades. Sua música fazia uso de melodias famosas, mas era sofisticada e cheia de ideias e regras. Os mais conhecidos "mestres cantores" eram Conrad Nachtigall, Sebastian Wilde, Adam Puschmann e Hans Sachs, este último imortalizado pela ópera Os mestres cantores de Nurembergue, de Wagner.
        Nas Ilhas Britânicas houve também um movimento musical dos menestréis. Os chamados scops viviam em comunidades e os gleemen circulavam pelas aldeias. Eles recitavam poemas e contavam novidades versejadas com o uso de uma harpa. Do século XII sobreviveram o nome e algumas das criações de um desses cantores populares, St. Godric.

Fonte: MEDAGLIA. Júlio; "Música Maestro!: Do canto gregoriano ao sintetizador". São Paulo: Globo, 2008.

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