domingo, 26 de março de 2017

SENHOR, DESCULPA ESSE DISCO

        A tentativa do aproveitamento da música popular urbana como música litúrgica surgiu na segunda metade da década de 1960, quando entre as resoluções do Concílio Vaticano II se aprovou a tese da conversão da arte popular ao cristianismo.
          Aprovada a tese, que correspondia a um evidente propósito de reaproximação da Igreja com a camada de fiéis mais humildes, um tanto fugidias antes a extrema identificação dos padres com as elites, o Concílio Ecumênico incluiu na Constituição Sobre a Sagrada Liturgia,  a 4 de dezembro de 1963, um artigo em que estabelecia:

          "O canto popular religioso seja inteligentemente incentivado, de modo que os fiéis possam cantar nos piedosos e sagrados exercícios e nas próprias ações litúrgicas, de acordo com as normas e prescrições e rubricas" (Artigo 118).

          Essa disposição, combinada com o Artigo 119, que admitia o aproveitamento de "tradição musical própria" dos povos, foi o ponto de partida para uma série de experiências de intercâmbio entre as músicas populares em várias partes do mundo. Na catedral de Coventry na Inglaterra, o músico americano Duke Ellington executou então uma respeitosa peça intitulada Deus no Princípio, em inícios de 1966, mas quase simultaneamente, a 27 de abril daquele mesmo ano, no Oratório de Vallicella, na igreja nova de São Felipe Neri, em Roma, três grupos de alienados e cabeludos jovens adeptos do iê-iê-iê internacional, os Barritas, Bumpers e Brains, transformaram uma missa num espetáculo deprimente, com suas guitarras e órgãos elétricos comandando uma orgia dançante de desocupadas senhoras e senhoritas da alta sociedade italiana. Enquanto isso, em Paris, o altar mor da igreja Saint Germain de Prés era usado como um simples estrado para a orquestra pop Nouvelle Orleans realizar uma audição em que a entrada triunfal de dançarinas negras, rebolando à luz dos vitrais da neve, foi o ponto de partida para a invasão das mocinhas do público, que usavam candelabros como balizas e cantavam aproveitando o ritmo: "Amém! Amém! Amém!".
          No Brasil, a repercussão das disposições da Constituição Sobre a Sagrada Liturgia foi inicialmente moderada, limitando-se os religiosos Dom Domingos, Frei Guido e Monsenhor José Alves a entrar em contato com o compositor Dorival Caymmi em fins de 1964, pedindo-lhe uma "formulação melódica mais adequado ao espírito do nosso povo". As notícias daquelas sessões de iê-iê-iê e de jazz dentro das igrejas na Europa e Estados Unidos, porém, coincidindo no Brasil com a ascensão da música de massa disfarçada sob o nome de "música  da juventude" (era o grande momento de Roberto Carlos), levou alguns padres mais afoitos a equívocos culturais de efeito tragicômicos: em junho de 1966, em Curitiba, o Padre Euvaldo de Andrade fazia a consagração da hóstia dizendo: "Deus, eu Te amo, moral!" enquanto o conjunto Os Águias atacavam um tremendo iê-iê-iê; e um mês depois, na igreja N. Sª da Paz, em Ipanema, no Rio de Janeiro, 3 mil meninos e mocinhas dançaram sobre os altares (de costas para as imagens dos santos) ao som da música do conjunto Brazilian Beatles.
          Essas manifestações, em tudo e por tudo contrárias ao espírito da resolução do Concílio, que em seu artigo 121 da Constituição Sobre a Sagrada Liturgia ordenava: "Os compositores imbuídos do espírito cristão, compreendem que foram chamados para cultivar a música sacra e para aumentar-lhe o patrimônio", serviram para desmoralizar uma aproximação que poderia ter sido de grande valor não apenas para a Igreja, mas para a própria música realmente popular no Brasil. E assim, ante o escândalo provocado pelas reportagens de jornais e revistas, que se limitaram a documentar essa aventura culturalmente demagógica de padres supostamente avançados, o problema da música popular nas igrejas caiu em ponto morto, só voltando a ser reexaminado em julho de 1973, por iniciativa do Secretário da Comissão Nacional de Liturgia da Comissão Nacional de Bispos do Brasil (CNBB).
          Dessa maneira, o recente lançamento pela RCA Camden, de um disco intitulado, Senhor, Ouve Teu Povo, com músicas tiradas do livro Cantos e Orações, da Editora Vozes, poderia constituir a grande oportunidade de sanar todos os erros, apresentando um trabalho que, pelo esforço da pesquisa e da adaptação de constantes da música popular brasileira, viesse contribuir com algo de novo no campo das relações (tão estreitas e tão antigas) entre os sons profanos e religiosos no Brasil.
          O que se verifica, infelizmente, pelas 12 faixas desse LP RCA Camden 107 0169, porém, é que mais uma vez a pressa e a evidente preocupação em fazer concessões à moda prevaleceram. A começar pelo texto apocalíptico da contracapa (a potência tecnológica pode "destruir instantaneamente a terra a qualquer momento" é o sensacionalismo que se alia ao interesse comercial na indignação de que as músicas foram tiradas do livro Cantos e Orações (antigo Cecília), "já na sua 43ª edição e mais de 1 milhão de exemplares vendidos". E embora o mesmo texto afirme que "a pesquisa dos ritmos brasileiros está na linha da mais moderna busca religiosa de participação com o povo", o disco começa a negar esse objetivo na escolha do próprio arranjador das músicas, pois ele e nada mais nada menos do que o conhecido jazzista Paulo Moura, definitivamente irrecuperável para qualquer iniciativa que se proponha a um mínimo de brasilidade em termos de música popular.
          Não há em todo o disco um único exemplo dos muitos ritmos populares produzidos pelo encontro do cantochão com a música da gente colonial dos séculos XVI ao XVIII, o caruru, o cateretê ou catira, o sarabaqué, ou ainda os benditos, aboios ou cantos de cegos do Nordeste, tão impregnados da melhor tradição do canto gregoriano das igrejas.
          Ao contrário dessa preocupação de pesquisa, n ão faltam dois sambas de compositores famosos Zé Keti e Paulinho da Viola, ao lado de modestíssima baladas e toadas de diluída inspiração musical dos Padres José Weber e José Alves, interpretadas por cantores ligados à aventura do iê-iê-iê eclesiástico, como o antigo cantor jovem, João Luís, o mesmo da experiência de forrobodó litúrgico da missa do Capelão Euvaldo Andrade na base aérea de Curitiba de 1966.
          Assim sendo, o disco Senhor, Ouve Teu Povo, patrocinado pela Editora Vozes, em colaboração com a RCA, longe de merecer o respeito devido a uma realização cultural que a Igreja está devendo desde sua proposta nova de 1963, deve ser interpretado apenas como mais um disco de música comercial. E como música comercial, o meu editor Frei Ludovico da Editora Vozes que me desculpe, o disco todo é muito ruim.


Fonte: TINHORÃO. José Ramos; "Música popular: O ensaio é no jornal". MIS Editorial/Secretaria do Estado de Cultura/FAPERJ, 2001.

Artigo retirado do Jornal do Brasil, Caderno B, Rio de Janeiro, 15/02/1974 - Pág, 2.

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