quinta-feira, 16 de março de 2017

MÚSICA POPULAR BRASILEIRA

Podem-se distinguir três períodos em todos esses anos de existência da MPB:

  • Período de Formação: (cerca de três séculos): da chegada de Cabral à chegada da corte de D. Maria I com o Príncipe Regente, futuro D. João VI (1500-1808);
  • Período de Consolidação: (um século e meio): da chegada da Corte ao início da bossa nova (1808-1958);
  • Período de Globalização: (cerca de meio século): do início da bossa nova aos dias de hoje (1958-2017).

PERÍODO DE FORMAÇÃO (1500-1808)

          Nesse período, que coincide com a nossa fase colonial, as comunicações e os transportes estavam muito pouco desenvolvidos. Portugal, pequeno, militar e economicamente fraco, tinha por estratégia de conservação da sua principal colônia, a política de sigilo, que a isolava do mundo. Por isso, impediu-se Humblodt de visitar o Brasil e tirou-se de circulação o livro de Antonil, Cultura e Opulência do Brasil, para que não se divulgassem as nossas riquezas.

          Por esses motivos, preponderaram na formação da nossa música as informações vindas de Portugal. Dele recebemos o sistema harmônico-tonal e a totalidade dos instrumentos propriamente musicais que ainda hoje usamos: flauta, viola, pandeiro, rabeca, cavaquinho etc. Negros e índios que colaboraram com os portugueses para formar a nossa música, também sofreram igual processo de isolamento. Assim, todos mantiveram-se afastados de outras influências. Nos últimos anos desse período, tínhamos criado pelo menos três gêneros musicais totalmente brasileiros, mescla das contribuições das três matrizes formadoras:

  1. O cateretê, mescla da coreografia indígena com elementos lusitanos (violas, pandeiros);
  2. O lundu, mescla de elementos africanos (ritmo, umbigada) com elementos ibéricos (dança de braços erguidos, castanholas, violas);
  3. A modinha, mescla de elementos portugueses com impalpável mas indiscutível contribuição brasileira.
          Essas novas criações apresentavam apenas influências advindas das matrizes iniciais. O professor  Mozart de Araújo afirmou que a modinha e o lundu "representam, por assim dizer, os pilares mestres sobre os quais se ergue todo o arcabouço da música popular brasileira".

PERÍODO DE CONSOLIDAÇÃO (1808-1958)

          No século e meio do período de consolidação, as condições do mundo sofreram as maiores transformados da história da humanidade. A maior delas foi a extrema velocidade com que as próprias transformação passaram a ocorrer. D. João VI demorou quase o mesmo tempo que Cabral gastara, trezentos anos antes, para chegar ao Brasil. De fato demorou oito dias mais. Um século e meio depois, os passageiros do Concorde partiam de Paris e chegavam a Nova Iorque antes da hora do início da viagem. As guerras passaram a ser acompanhadas pela televisão, transmitidas diretamente do campo de batalha. Onze anos depois de terminar o período de que tratamos, o homem pisou na lua. A imprensa, o disco, o rádio, como meio de comunicação de massa, e o cinema falando puseram a música ao alcance dos homens, com uma facilidade desconhecida antes.

          D. João VI, ao desembarcar na Bahia, decretou a abertura dos portos até então só franqueados aos navios da metrópole. O Brasil tornou-se cabeça do Império Português, chefiado por um soberano apaixonado por música, em cuja capela real uma centena de executantes, muitos deles estrangeiros, deliciavam os ouvidos dos aristocratas vindos com ele. Deliciavam ainda mais, por certo, os ouvidos dos melômanos da terra, não habituados a tamanhos esplendores. Marcos Portugal e Sigmundo Neukomm, dois artistas perfeitamente inseridos na elite da mais alta música européia, viveram ano no Brasil. Marcos Portugal tinha dezenas de óperas encenadas nos melhores teatros da Europa e Neukomm, discípulo querido de Haydn, era pianista da casa do príncipe Talleyrand.

          A independência política acelerou o processo de internacionalização. A navegação a vapor trouxe aos teatros do Rio de Janeiro numerosas companhias que divulgaram as danças em voga na Europa: polca, schottisch, tango, mazurca, habanera etc.

          A característica maior do período foi a pluralidade de fontes onde emanavam as influências externas. Elas vinham do mundo inteiro, mas adaptavam-se todas ao espírito da música que já se fazia no Brasil.

PERÍODO DE GLOBALIZAÇÃO (1958-2017)

          No campo da música, essa entrada americana é ostensiva e esmagadora. Se período de formação foi o da influência portuguesa, e o período de consolidação, o da influência do mundo, este período da globalização está sendo o período não apenas da influência, mas da verdade imposição dos modelos americanos.

          A Bossa Nova deu início ao movimento, excluindo de suas práticas as nossas principais tradições musicais: a escola de bel-canto popular, os instrumentos africanos de percussão (atabaque, cuíca, agogô), o cavaquinho, a baixaria do violão e a rítmica negra do samba.

            Depois da Bossa Nova, essa influência foi-se acentuando de tal sorte que, mesmo nos gêneros menos propícios, ela aparece. Em Salvador, os blocos de índios constituem manifestação corriqueira no carnaval. Os mais importantes deles chamam-se: Apaches do Tororó (1966), Comanches do Pelô (1975), e Sioux (1977), segundo informa Goli Guerreiro (A Trama dos Tambores - A Música Afro-pop de Salvador).

          O mesmo ocorreu na música sertaneja ou caipira, de acordo com as informações de Rosa Nepomucemo: "A meta do artista não era mais comprar sua casinha num bairro de classe média da capital e ali sossegar da labuta, mas alcançar as lojas de discos de Miami, Nova Iorque, países da língua espanhola, Japão. E nessa empreitada, a viola de dez cordas, instrumento típico do universo do gênero, desapareceu irremediavelmente, entre tapas e beijos, saturada sob o som amplificado por toneladas de equipamentos e as vendagens de milhões de discos". Em consequência, os intérpretes se vestem de cowboys. Até os cavalos, em vez dos sirigotes de caçamba dos quatrumanos de Guimarães Rosa, são encilhados com as selas "mexicanas" de cabo torto de guarda chuva no santo-antônio".

          Depois da Bossa Nova, um entusiasta do Tropicalismo, com ingenuidade comovente, escreveu em 1974: "A intercomunicabilidade universal é cada vez mais intensa e difícil de conter, de tal sorte que é literalmente impossível a qualquer pessoa viver a sua vida diária sem se confrontar a cada passo com o Vietnã, os Beatles, as greves, 007, a lua, Mao ou o Papa".

          As pessoas, na verdade, se defrontam a cada passo, não com o resultado da "intercomunicabilidade universal", como acredita o tropicalista ingênuo, defrontam-se, sim, com a ingerência maciça de interesses americanos nas preocupações cotidianas de todo o mundo: a guerra americana do Vietnã, o sucesso dos ídolos ingleses do rock americano, as greves contra o recrutamento para a guerra do Vietnã, o famoso herói da Guerra Fria, 007, a chegada do homem à lua hasteando nela a bandeira dos EUA e não a da ONU, o problema do contencioso americano com a China.

          Essa "política de entrada econômica nos outros países", evidentemente geradora também de uma "entrada musical", está embasada numa engrenagem complexa de fatores de toda espécie. Como diria Montesquieu, ela deriva da própria natureza das coisas. Num relatório da UNCTAD (Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) dedicado à "Tecnologia da Informação para o Desenvolvimento", chamava-se atenção para um fato gravíssimo do mundo atual:

"Uma das muitas contradições de nossa época é justamente o contraste entre uma informação cada vez mais caudalosa e um acesso muito desigual e seletivo a essa informação. O mercado das tecnologias da informação está situado quase 90% nos países industrializados (39% nos EUA. 34,5% na Europa Ocidental e 16% no Japão). Para todo o resto do mundo, sobram apenas cerca de 10% . Para se ter ideia do contraste existente, bastam duas informações: 70% do faturamento total do mercado correspondem a apenas 20 empresas, das quais 10 dos EUA e 6 do Japão . Eis a que se reduz no mundo dos fatos a famosa aldeia global de MacLuhan".

          A probabilidade de ser divulgado para o mundo choro de Pixinguinha, um partido alto de Aniceto do Império ou um samba de Nelson Cavaquinho é apenas pequena parcela daqueles 10% de elementos da tecnologia da tecnologia da informação que estão ao alcance do grupo não privilegiados de países. O pouco da MPB que se toca no resto do mundo só consegue faze-se ouvir adotando sotaque musical estrangeiro já insinuado no próprio título dos pseudo-gêneros: "samba-reggae, axé-music, pop-country, rap, rock brasileiro, funk, hip-hop"   

Fonte: Livro: "500 ANOS DA MÚSICA POPULAR BRASILEIRA". Rio de Janeiro: MIS Editorial/Secretaria do Estado de Cultura/FAPERJ, 2001.

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