domingo, 12 de março de 2017

MÚSICA NA AMÉRICA PORTUGUESA

"UMA HISTÓRIA EM CONSTRUÇÃO"


          A primeira ocasião em que um brasileiro foi à Europa especificamente para uma tournée de apresentações musicais ocorreu entre 1794-1795, nas cidades do Porto, Coimbra em Lisboa, em Portugal, para a execução de recitais com árias de óperas. Sabe-se disso pela Gazeta de Lisboa, que noticiou todas as apresentações, sem poupar elogios. Quem apresentou esses recitais foi uma mulher, brasileira, negra e escrava, que aprendeu música numa casa de fazenda no interior da Capitania do Rio de Janeiro. Chamava-se Maria Joaquina da Conceição Lapa. A Gazeta de Lisboa noticiou apresentações suas no Porto, em Coimbra e eme Lisboa (no Teatro São Carlos), entre dezembro de 1794 e janeiro de 1795. José Maurício Nunes Garcia escreveu para ela o Coro para o entremês (1808) e uma ária de O Triunfo da América (1809), entre outras obras. Por outro lado, pouco se escreveu sobre ela e quase nada mais ficou registrado na história da música brasileira além do seu nome, dos lugares onde cantou e das obras a ela dedicadas.
          Nossa propensão para ignorar o passado musical brasileiro manifestou-se já no primeiro livro escrito sobre a história da música no país, por Guilherme Melo, em 1908. Nessa publicação, dava-se atenção quase que somente ao folclore musical e à música do século XIX, abordando a fase colonial com o mesmo superficialismo que seria observado em outras obras do gênero. Foi somente em 1944 que o alemão Francisco Curt Lange, então radicado no Uruguai, iniciou pesquisas na região das Minas Gerais, demonstrando a existência, na capitania, de compositores do século XVIII que foram capazes de suprir a música para as cerimônias religiosas. Os trabalhos pioneiros de Curt Lange em Minas Gerais estimularam estudiosos brasileiros a iniciar pesquisas sobre a história musical de outras regões do país, como fizeram, a partir da década de 1960, Cleofe Person de Matos no Rio de Janeiro, Jaime Diniz no Nordeste, Regis Duprat em São Paulo e Vicente Salles no Pará, entre outros. Tais autores deram início a uma investigação ampla sobre a prática musical do período colonial brasileiro, o que hoje sabemos ainda esta longe de possibilitar a compreensão dos complexos fenômenos que regeram a recepção, a composição e a execução da música no Brasil, na fase anterior à Independência.

"MÚSICA COLONIAL"


          Ao falarmos em "música no Brasil colonial", estamos nos referindo a toda a música que se produziu no país entre 1500-1822, seja ela de origem indígena, africana ou européia. A expressão não define, portanto, um tipo, estilo ou padrão musical único, mas sim a totalidade da música que se praticou no âmbito geográfico e cronológico que se definiu com a expressão "colonial".
          A preocupação com a música "do Brasil colonial" reflete a antiga historiografia da música no Brasil, que adotava como períodos as próprias etapas de nossa evolução política: Colônia, Reino Unido, Império, República. Como a historiografia nacionalista, inclusive, a musical, tomou por objeto o Brasil independente, toda a produção musical que cronologicamente o precedia foi enquadrada no obscuro período colonial, como fizeram os primeiros historiadores de nossa música: Guilherme de Melo, Renato Almeida, Mário de Andrade e Luís Heitor Corrêa de Azevedo. Hoje, a expressão continua a ser utilizada, pois ainda propicia o interesse pelo período histórico que durante tempo foi negligenciado, mas é certo que, em termos historiográficos e musicólogos, essa designação encerra vários tipos, estilos e períodos da evolução das práticas culturais do país, entre elas a musical.

"CATEGORIAS DE MÚSICA NO BRASIL COLONIAL"


        Principalmente, é necessário considerar que, no Brasil, conviveram duas grandes categorias de música, cuja diferença está em sua função e não em sua aparência. O primeiro tipo é representado pela chamada música tradicional, dos povos indígenas, africanos e europeus que viveram no país. Essa categoria musical, de produção espontânea e não profissional, já existia antes mesmo da colonização do Brasil e uma parcela significativa de sua função se preservou, com certas alterações, até hoje. A miscigenação racial no país fez com que, da mistura de elementos musicais praticados por vários povos, surgissem novos tipos de música, sempre em transformação até os tempos atuais, porém mantendo suas características espontâneas até hoje. É esse o tipo de música que, a partir do final do século XIX, começou a ser definido como folclórica ou popular.
          Por outro lado, a colonização transferiu para o Brasil uma categoria europeia da música que era produzida por músicos profissionais, principalmente para cortes, teatros e instituições religiosas e que, a partir de inícios do século XX, começou a ser chamada de "erudita" ou "artística". Essa categoria musical, mais sujeita as regras, mais dependente de relações econômicas e normalmente criada pelo auxílio da escrita musical, teve, no Brasil, um desenvolvimento esteticamente dependente de sua evolução na Europa, mas funcionalmente, capaz de se adaptar às circunstâncias sociais e econômicas observadas no período colonial.
          Se os tipos de música tradicional se diferenciavam de acordo com os grupos étnicos pelos quais era praticada, a música "profissional" européia possuía diferenciações internas de acordo com as circunstâncias para as quais era produzida. Dois eram os tipos básicos de música profissional que se praticava na Europa: a música religiosa e a música profana. As obras religiosas (a maioria delas católicas, no caso brasileiro), escritas para celebrações divinas, como missas, ofícios, procissões etc., em igrejas, conventos e mesmo nas ruas ou nas casas particulares, deveriam obedecer a algumas regras já estabelecidas para essa modalidade, como a utilização de textos já existentes (normalmente em latim), o caráter religioso e o respeito à tradição cristã. Por sua vez, a música profana, escrita para circunstâncias não religiosas, como festas oficiais, celebrações urbanas, diversões sociais ou o próprio ambiente doméstico, era representada pela ópera ou música de teatro, pela música vocal, para coro ou solistas acompanhados por instrumentos, pela música destinada a grandes ou pequenos conjuntos instrumentais, a instrumentos solistas ou até mesmo pela música didática, ou seja, destinada ao ensino musical. 
          Na Europa, como no Brasil, a música religiosa foi centralizada em torno dos templos instalados pela Igreja ou pelas irmandades religiosas, associações de leigos que visavam garantir a prática religiosa aos seus membros em troca da cobrança de anuidades. Já a musica profana esteve centralizada em torno de entidades urbanas, teatros, cortes e residências de nobres abastados, que mantinham compositores e executantes para a produção de uma música exclusiva. Mas se esses dois tipos de música foram igualmente requisitados na Europa, o mesmo não ocorreu no Brasil. A urbanização, ainda que precária, a partir do final do século XVIII, e a instalação da corte em torno do Príncipe Regente e depois Rei D. João, no Rio de Janeiro, após sua chegada em 1808, permitiam o estabelecimento de uma prática de música se aproximou da importância das cortes européias do período.
          O resultado dessas circunstâncias da história brasileira é que a maior parte da música profissional composta no período colonial foi religiosa e os exemplos profanos são quase sempre tardios, a maioria já de inícios do século XIX. Além disso, o desenvolvimento dessa categoria musical sempre esteve ligado ao desenvolvimento econômico e, portanto, as regiões brasileiras se diferenciaram na produção musical, tanto quanto se diferenciaram no progresso material. Por isso, encontramos o surgimento de movimentos musicais derivados de movimentos econômicos, dos quais o ciclo do açúcar, no Nordeste, e o ciclo da mineração, em Minas Gerais, foram exemplos marcantes. 


Fonte: CASTAGNA. Paulo; "História e música no Brasil".São Paulo: Alameda, 2010. 

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