segunda-feira, 6 de março de 2017

A MÚSICA NO TEMPO

          Desde que se tem notícia da presença do homem na terra, sabe-se que o som o acompanha das mais diversas maneiras. Aliás, ao nascer, a primeira coisa que ele faz é emitir um som, e também levar um tapa no traseiro para logo saber que a coisa não vai ser fácil.
        De início, o som era usado para o ser humano se comunicar com o próximo, através da voz, depois de tambores, e, mais tarde, de instrumentos artificialmente construídos. Em seguida, o som começou a ganhar conteúdos a ser trabalhado de diversas formas, adquirindo funções no dia-a-dia. Foi usado para incentivar o trabalho, para despertar o espírito patriótico, para provocar o instinto da disputa e da luta, para induzir o homem ao sentimento religioso, ao erotismo, à guerra, e a todos os tipos de manifestação e sensações da alma. Apesar de o som não ser essencial para a sobrevivência humana, não se tem notícia de nenhuma raça ou povo que não cultive a música. Ou seja, o som é feiticeiro.
         Com a chegada da Renascença, o som foi elevado à categoria de "arte". Foi tratado como objeto de pura beleza, de encantamento "abstrato", estabelecendo uma relação direta com nossa alma e emoção, distante de funções específicas (embora elas tenham continuado a existir). Assim, seu manancial expressivo se multiplicou ao infinito. Ao ouvirem as missas a cinco vozes de Palestrina na Capela Sistina, as autoridades da Igreja ficaram preocupadíssimas e tentaram aboli-las, pois a beleza ou o "feitiço" daquelas cristalinas sonoridades era de tal encantamento que os fiéis poderiam nem sequer prestar atenção ao conteúdo dos textos religiosos. Entravam em delírio psicodélico.
          No período barroco a música ganhou pompa. No clássico, estrutura e galanteria. No século XIX, transformou-se no instrumento de expressão das angústias e das alegrias da alma humana. No início do século XX, todos os códigos foram pelos ares e instaurou-se um feroz "experimentalismo", aliás criando mais "ismos" estilísticos em cinquenta anos que nos quinhentos anteriores.
          Nesse mesmo século XX, porém, descobriu-se que esse feitiço podia ser manipulado comercialmente e dar muito lucro. Lançando mão dos recursos mecânicos e eletrônicos recém-criados, iniciou-se a chamada "indústria da comunicação". O som passou a ser consumido em escalas muito maiores e em diversificados processos, até mesmo sem a presença de seu autor ou intérprete, através do rádio, do disco, ou associado a outros veículos, como o cinema, a TV ou o DVD.
          Na virada do último milênio para este, a indústria da produção e do consumo musical no mundo cresceu em proporções tão astronômicas que hoje só perde, em termos de movimentação financeira, para a do petróleo. Aqui se estabeleceu um estranho paradoxo. Os enormes e sofisticados recursos de produção industrial globalizante aplicado aos bens de consumo comuns, ao serem estendidos à produção cultural, acabaram por prestar um desserviço à arte em vez de prestigiá-la 
 e elevar seu nível. Assim como hoje, no mundo inteiro, reduziu-se o número de empresas a algumas poucas holdings ou marcas de sanduíches, tênis, automóveis, cigarro, computadores, jeans, gravadoras, bebidas, em vez de se levar a música do mundo para o mundo, a indústria da comunicação escolheu alguns "modelitos" de entretenimento de massa sonoros facilmente consumíveis e os espalhou mundo afora. Nesse contexto, a produção cultural regional perdeu a importância. A ordem é padronizar e fechar o repertório para que ele se espalhe pelo mundo com mais facilidade e rapidez. E sem grande "profundidade", pois a ordem é: "consuma e descarte" como ocorre com os produtos do dia-a-dia.
          

Fonte: MEDAGLIA. Júlio; "Música Maestro!: Do canto gregoriano ao sintetizador". São Paulo: Globo, 2008.


          

A MÚSICA COMO MOLDE PARA A SOCIEDADE

Todas as vezes que o homem moderno, em qualquer momento de sua vida, ouve música, conhece realmente o significado e a implicação do que est...